Um pouco do meu dia a dia…
Antes de mais gostaria de pedir desculpa a todos os seguidores deste site por não dar notícias há tanto tempo. Acreditem que não é por falta de vontade; simplesmente o tempo voa e só agora é que fui capaz de me sentar e escrever alguma coisa em condições.
A última vez que escrevi (e única) ainda estava a entrar “na onda” desta realidade tão diferente e a adaptar-me a tudo isto. Já me sentia lindamente mas ainda precisava de um tempinho…agora sim, já sinto que pertenço a este lugar; já me sinto em casa, numa casa com um ambiente maravilhoso, onde me sinto bem de mais; uma casa e uma família que vai ser difícil algum dia largar…
Torna-se difícil descrever em poucas palavras o que tem sido a minha vida desde que cheguei a este cantinho tão especial. Se tentasse escrever tudo o que aqui vivo, sinto, experimento e aprendo, talvez não saísse mais desta cadeira. Cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia é tão tão intenso que acho que por mais que me esforce nunca vou ser capaz de transmitir aquilo que realmente sinto, mas vou tentar…=)
Um pouco do meu dia a dia…
Normalmente acordo bastante cedo e vou dar uma boa caminhada pela estrada junto à linha de comboio que atravessa o bairro. A estrada é em terra batida, os buracos são infinitos e apesar do lixo não ser pouco, a estrada é linda! A terra vermelha, que só África é capaz de usufruir, as palhotas inacabadas, as galinhas desvairadas, as crianças a brincar na linha do comboio, os chapas desenfreados de um lado para o outro, as mulheres com sacos à cabeça maiores que elas, as cores das capulanas e a mistura dos cheiros, fazem-me começar bem o dia! Parece que ganho força para começar a trabalhar (aproveito para agradecer a boa companhia do Luís e Pinto, manos cá do bairro).
Quanto ao trabalho, graças a Deus não tem faltado! Sinto que todos os minutos valem ouro. Todos os dias são diferentes; todos os dias aparecem coisas novas, situações inesperadas, surpresas, novos desafios, enfim, cair na rotina é coisa que aqui não acontece.
De manhã dou aulas de informática a alguns alunos da alfabetização cá do centro; um grande desafio… Isto porque nunca na minha vida fui muito inclinada para as tecnologias e de repente dou por mim a estudar e a preparar aulas com pés e cabeça. Além disso, muitas vezes é necessário antes de me inclinar na informática, debruçar-me no português e ensinar o a-e-i-o-u a pessoas, muitas delas com o dobro da minha idade, nem sempre é fácil. A verdade é que estou a adorar. Está a ser uma experiência espectacular. A felicidade com que os alunos se sentam em frente ao computador já me enche as medidas. A vontade em aprender e o reconhecimento dos alunos é comovente. O interesse das pessoas em aprenderem a ler e a escrever é suficiente para me entregar a este projecto de alma e coração. Todos sabem e sentem que a educação é fundamental para andarem para a frente e o entusiasmo e a dedicação com que vêm para as aulas não pode ser mais recompensador.
Da parte da tarde, dou explicações a uma turma da 5ª classe, mais uma iniciativa das irmãs cheia de mérito, pela sua pertinência, necessidade e utilidade. Basicamente o objectivo não é apoiar os alunos no que diz respeito ao plano curricular do seu ano lectivo, mas sim alfabetizá-los de raiz! Mais uma riquíssima e desafiante experiência!
Tenho também trabalhado um pouco no projecto de apadrinhamento de crianças, mais um projecto espectacular, que me apetece envolver até ao fim, mas que infelizmente é raro conseguir dedicar-me a ele.
À 6ª feira (quinzenalmente), desenvolve-se, também cá no centro, um outro projecto dirigido a crianças desnutridas. O objectivo é assegurar alguma alimentação a crianças com baixo peso e desenvolvimento comprometido. São distribuídos leites (até aos 6 meses) e papinhas (até um ano de vida) na tentativa de amparar um pouco estas crianças mais vulneráveis. As acções de sensibilização nesta área são fundamentais. Estes encontros são uma oportunidade riquíssima para se debater certos temas dirigidos tanto às crianças como as suas mães. Não são poucas as vezes que saio daqui um pouco angustiada, fragilizada, e até mesmo perturbada. É aqui que realmente se tem contacto com a miséria; é aqui que se lida com a extrema pobreza, é aqui que se percebe que no século XXI ainda há fome; é aqui que se percebe as consequências devastadoras que o HIV está a ter em África e em todo o mundo. Também é aqui que me sinto uma privilegiada neste mundo e onde percebo que não posso cruzar os braços e fechar os olhos!
O trabalho ainda não ficou por aqui…nas últimas semanas tenho acompanhado duas manas que vão semanalmente à Cadeia Civil de Maputo. Mais uma vez o trabalho é dirigido às mulheres. O tempo que lá estamos é gerido da forma que acharmos mais pertinente. Penso que o objectivo comum é conseguirmos, naquele pouco tempo, fazê-las esquecer um pouco tudo o que está para trás; abstraírem-se por momentos da violência das suas vidas. A costura, desenho, pintura, leitura, “discussão” de vários temas, poesia, são algumas das actividades às quais recorremos para tentar atingir o nosso fim mas aceitam-se sugestões…=)
Também semanalmente, tento acompanhar a Irmã Raquel à Casa da Alegria, projecto desenvolvido pelas Irmãs de Calcutá. Acho que neste local, sem dúvida, muito mais do que dar, vou receber. É uma fonte de aprendizagem que nunca tive e duvido que algum dia venha a ter tal oportunidade. É uma vivência tão rica, tão intensa…não sou capaz de descrever, desculpem…
Sempre defendi que quem quer fazer muita coisa, acaba por não fazer nada em condições. Quando comecei a envolver-me em tantos projectos fiquei um pouco assustada, com medo de não dar conta do recado e não ser capaz de responder da melhor forma. Decidi arriscar e experimentar. Ainda não me arrependi!
Acho que dá para perceber que estou óptima, realizada e cada vez mais tenho a certeza que fiz a melhor opção em voltar para este país pelo qual me apaixonei. Estou feliz por ter arriscado novamente. Senti-me absorvida por isto…precisava de mais…e acho que finalmente encontrei…
Maria da Paz
Maputo, Maio de 2010
É aqui que realmente se tem contacto com a miséria; é aqui que se lida com a extrema pobreza, é aqui que se percebe que no século XXI ainda há fome; é aqui que se percebe as consequências devastadoras que o HIV está a ter em África e em todo o mundo. Também é aqui que me sinto uma privilegiada neste mundo e onde percebo que não posso cruzar os braços e fechar os olhos!
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