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Missionárias Dominicanas do Rosário
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Permanecer

Muito queridas irmãs, em primeiro lugar queria agradecer esta oportunidade de partilhar convosco esta reflexão pessoal que ao mesmo tempo me tem “obrigado” a fazer uma paragem no caminho e tentar escrever algo do muito que nestes anos estou a viver junto dos doentes de HIV.

Penso que não exagero ao afirmar que a situação da pandemia de HIV em Africa é dramática. Estamos a viver tempos muito difíceis pois como diz o teólogo africano Benezet: Africa tornou-se o deposito do vírus do SIDA. Ante esta desgraça o continente está indefeso”. Nós, Missionárias Dominicanas, conscientes de que se trata duma das maiores prioridades, estamos a colaborar desde diferentes frentes: formação, assistência sanitária aos doentes, apoio `as famílias afectadas pelo HIV... Eu como médica, levo mais de 6 anos a trabalhar no campo do HIV/SIDA, tanto na área “curativa” através da assistência médica directa e tratamento anti-retroviral, como na área “preventiva”, colaborando em palestras e aulas de formação, pós laborais ou aos fins de semana.

Hoje, quando olho para todos estes anos de missão e tento fazer uma releitura vejo que ao longo desta caminhada aconteceram muitas mudanças, câmbios na sociedade, na ciência, na Igreja... que nos foram indicando novos caminhos e novas estratégias de combate ao HIV. Quando iniciei o meu trabalho neste campo, tudo me parecía fácil, contava com a frescura dos começos e a ilusão e as forças por estrear. Davam-se os primeiros passos no tratamento do SIDA em Moçambique, éramos protagonistas dum momento único para o país. Trabalhávamos com todo o nosso empenho e dedicação, convencidos de que o tratamento médico, por si sozinho, já viria a trazer “a solução” para o SIDA em África, mas não foi assim, exactamente.

Agora, quase 7 anos depois, que posso dizer?
Continuo com empenho e dedicação tratando, o dia inteiro, doentes infectados, adultos, crianças e grávidas que precisam tratamento anti-retroviral. Se faltar este tratamento as pessoas não poderão sobreviver ao vírus. Portanto, parto deste princípio básico: é necessário que todos os doentes infectados que precisem, tenham acesso ao tratamento anti-retroviral. Mas também não é menos certo que se bem o tratamento é imprescindível, não é suficiente, pois o SIDA não só é um problema médico, é um problema social, cultural, económico, religioso... daí que os campos de actuação sejam múltiplos e variados: a informação adequada, a educação, a atenção aos doentes, a promoção da Justiça e dos Direitos Humanos... Só assim, num trabalho integral e em equipas multidisciplinares é que poderemos encontrar estratégias comuns para fazer frente a este vírus mortal.

Mas na caminhada deste anos não só me apercebi das mudanças na sociedade, na medicina, na realidade que nos rodeia... também se deram câmbios na minha pessoa e na maneira de compreender e viver o meu compromisso com os doentes de HIV/SIDA.

Contemplar diariamente, um dia atrás de outro, um ano depois de outro, tanta dor e tanto sofrimento extremo, não é fácil. A epidemia assola o nosso povo e ameaça com acabar com gerações inteiras. O problema é já de tal magnitude que em muitas ocasiões me tenho sentido “desbordada”, desconcertada e tentada ao desânimo. A dureza da realidade junto à minha pobreza e fragilidade no meio desta escuridão, tem-me levantado muitas perguntas.

Pergunto ao Sentinela: Sentinela, quanto vai durar ainda a noite?! Quais são os frutos depois de tanto esforço e dedicação? Como integrar e harmonizar finitude, fragilidade e pobreza, a minha e a da realidade, com o poder infinito de Deus?! Qual é a colaboração exacta e precisa que Deus me pede a mim, neste momento concreto? São questionamentos que me faço a mim mesma, mas também que outros me fazem: Porque permaneces, porque ficas, se poderias ir para outros projectos menos duros e mais gratificantes?

Essa é a pergunta: Porque permaneço? Porque continuo lutando apesar de tantas perguntas sem respostas claras?

Permaneço não porque me resigne ou me limite simplesmente a resistir, permaneço porque continuo esperando contra toda aparência, contra todos os prognósticos dos espertos, contra todas as estatísticas e números, esperando “no Deus que dá a vida aos mortos”. 

Permaneço porque sei que Deus está connosco, que não estamos sós, que Ele está do nosso lado e na mesma barca. Hoje me diz a mim como a Jairo: “Não temas, basta com que tenhas fé e é desde essa experiência que vivo com a certeza e a confiança de que a nossa barca não vai à deriva e que Ele nos levará a terra firme.
 Permaneço porque o Corpo de Cristo está doente de SIDA e se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros.

Eu tive a sorte de ter um encontro não só informativo senão afectivo com eles e a partir daí tudo mudou pois passei a ser responsável por aquilo que conhecia. Sinto-me “vocacionada” a participar nesta luta a favor da vida na que Cristo precisa da nossa colaboração, das nossas mãos, da nossa voz, do nosso coração para fazer chegar aos nossos irmãos doentes os cuidados necessários, a dose diária de medicamentos, e muitas doses de compreensão, esperança e encorajamento. Cristo nos pede que permaneçamos acordados e vigilantes junto a Ele neste Getsemani que o nosso povo atravessa nestes momentos.

Permaneço porque depois dum largo sonho, Deus me acordou e me vai fazendo compreender que os ritmos do Reino muitas vezes não são tão visíveis e quantificáveis como eu gostaria, que não estão ao alcance dos meus cálculos, mas que a sua acção permanente nunca parará, apesar de todas as dificuldades e resistências e que o mais mínimo gesto de ternura, de carinho e de cuidado com um dos nossos irmãos doentes pode ter consequências ilimitadas.

E por último permaneço porque o sofrimento de tantos seres humanos não pode ficar esquecido e desejo ajudar a manter viva a memória de João, de Acácio, de Cremildo, de Julieta, de Albertina, de António...e de tantos outros que ficaram na beira do caminho. Esta memória me alenta a não decair e a manter o trabalho por um mundo diferente.

E assim termino com umas palavras do livro do Deuteronómio 4, 9
 
“Não te esqueças nunca do que tens visto com teus olhos e não o deixes escapar nunca do teu coração


Ir. Raquel Gil.
(Missionária Dominicana do Rosário)
(Moçambique)