VIVER
Viver o projecto das Irmãs Dominicanas do Rosário, aqui na comunidade de São Domingos no Bairro das Mahotas, aqui em Moçambique, aqui em África, tem sido um privilégio pela vivência cristã, pela vivência cultural e pelo conhecimento de como é possível fazer tanto com tão pouco (recursos humanos e materiais), mas com muita determinação, humanismo, humildade, amor ao próximo, confiança, capacidade de “ensinar a pescar e não só dar o peixe” e fazer com que os mais pobres e vulneráveis acreditem que há sonhos; que eles têm direito a serem outros e a ter outra vida.
A confiança, a afectividade, o acolhimento e a integração, a disponibilidade, a sabedoria e o acreditar nas minhas capacidades e competências para esta missão ao serviço do seu carisma e da sua mística, estão sempre presentes na atitude das Irmãs para comigo, o que muito me sensibiliza e faz-me sentir pertença à sua família e aos seus projectos. Também a participação em algumas celebrações religiosas tem sido, para mim, espiritualmente enriquecedor e culturalmente gratificante.
A oportunidade de participar nos trabalhos do Centro Social Flori tem- me proporcionado vivenciar um projecto para as pessoas e com as pessoas, dignificando-as; emancipando-as e enaltecendo a sua coragem, persistência e resiliência.
As aulas de formação cívica; as aulas de explicação; o apoio ao estudo na biblioteca; o acompanhamento dos projectos de microcrédito; as entrevistas a mulheres com vista à escrita das suas histórias; o apoio no projecto “leite e papinhas”; as aulas de francês ... têm sido um tempo e um espaço que me fazem considerar que mais do que eu fazer este trabalho, é este trabalho que me faz. Com muita intensidade, participação e disponibilidade com que realizo este voluntariado, em parceria com a Maria da Paz, estes são tempos, pessoas e tarefas que constituem um grande desafio humano e intelectual:
-declama-se poesia de José Craveirinha, Mia Couto, Eduardo White...dá- se a conhecer Luís de Camões, Fernado Pessoa, Sophia de Mello,
-canta-se e dança-se o “Malhão, Malhão”, o “Vira”, “Indo eu a caminho de Viseu” em intercâmbio com as músicas e danças da “Marrabenta” cantadas em ronga e changana,
-celebra-se o dia da mulher moçambicana e reflecte-se sobre os direitos das mulheres, o tráfico de pessoas, a violência doméstica,
-dão- se a conhecer livros, gramáticas e dicionários,
-ensina-se a ler, a escrever e a contar,
-contam-se histórias tradicionais africanas e portuguesa e desenha-se com cores,
-dinamizam-se sessões sobre microcrédito, reflectindo sobre a importância do saber e do saber fazer como mais valia no empreendedorismo..
-aprende-se sobre agricultura tropical e doenças tropicais e também sobre SIDA,
- inventam-se canções em francês,
-está-se disponível para as pessoas e para as sua solicitações e conversas,
-deixa-se que o tempo aparentemente sem ocupação seja o mais produtivo e o mais surpreendente,
- visitam-se outras geografias,
- ...
E observa-se, ouve-se, cheira-se, conhece-se e sente-se, valorizando o que é simples, essencial, bom e belo.
Para todas as Irmãs, a minha admiração e gratidão.
Maputo, 6 de Maio de 2010.
Maria Clara Silva
|